Bola nossa!
Talvez o árbitro mais lendário do futebol brasileiro seja o "Cidinho Bola Nossa". Atleticano apaixonado, em um clássico entre seu time versus o Cruzeiro, em meados da década de quarenta em Belo Horizonte, Cidinho teria gritado bem alto: - Bola nossa!!! Cidinho estava se referindo a um lateral "favorável" ao Clube Atlético Mineiro que estava sendo efetuado por um jogador cruzeirense. A partir daí, Cidinho ficou conhecido como "Bola Nossa", apelido que carregou para sempre e que conotava sua grande paixão pelo clube.
Creio ser impossível, quando apaixonados somos por algo, separar a emoção da razão, pelo contrário, as duas andam pari passu e são complementares. O grito involuntário de Cidinho revelou sua emoção, que por um descuido falou mais alto.
O Ministro da Educação, Cristovam Buarque, costuma declarar ser um apaixonado pela educação. Esta afirmação, principalmente por ter certeza de ser verdadeira, é motivo de muita confiança em seu trabalho na frente desta pasta. É esta paixão que julgo fundamental para alavancar as grandes obras, as grandes mudanças.
No entanto, é imprescindível que esta paixão acompanhe a razão científica dos fatos. Digo isto referindo-me a prioridade dada pelo MEC à educação básica. A Educação Superior brasileira e o Sistema Nacional de Pós-Graduação, quando tratados como prioridades menores, revela apenas o lado apaixonado do Ministro em detrimento da razão.
Impossível pensar em um projeto de nação sem Universidade de qualidade e recursos humanos altamente qualificados. A absorção dos mestres e doutores deve ser tratada também como prioridade a fim de se combater a emigração de cérebros que aflige o Brasil. Só na América Latina calcula-se que por ano quarenta mil cientistas trocam seus países por outros do chamado primeiro mundo.
O combate ao analfabetismo precisa contar com pesados investimentos em Educação Superior e em Ciência e Tecnologia como um todo. A erradicação do analfabetismo passa pela retomada do crescimento econômico que se fará com quadros formados por nossa Universidade.
A Universidade é fundamental para alcançarmos a proeza da erradicação do analfabetismo em nosso país. A gravidade das conseqüências que a proposta de reforma da Previdência, atualmente em curso, pode impor a Universidade pública é preocupante e para inquietar ainda mais, veicula-se as negociações em torno da reforma tributária, que ameaça todo o sistema educacional brasileiro.
A pressão dos governadores está sendo em torno da proposta que pode acabar com a vinculação dos recursos tributários estaduais e municipais destinados à educação e C&T, conquista importante da Constituição de 88.
Não é possível mais recuo. Como se diz em Minas, não se pode vestir um santo despindo o outro. Educação básica e superior caminham juntas e pareadas com a pós-graduação. Todas merecem prioridades iguais!
Como apaixonados somos pela educação, gritaremos alto como o Cidinho Bola Nossa, mas em defesa da Educação e da C&T, tratadas como prioridades iguais, sem distinção.
Luciano
Rezende Moreira,
agrônomo e pós-graduando pela Universidade Federal
de Viçosa e Coordenador Geral da ANPG.